A Deusa Afrodite como inspiração no processo terapêutico.

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Julyane Antunes

11/10/20256 min read

Afrodite, para os gregos, ou Vênus para os romanos, é a deusa do amor e da beleza, sendo considerada a mais bela e tentadora entre todas as deusas. Os poetas a descreviam com seus cabelos dourados, olhos brilhantes, pele macia e belos seios. Era retratada pela poeta Homero como possuidora de um irresistível encanto. Os escultores costumavam representá-la despida ou parcialmente nua, trazendo foco para seu corpo belo e sensual. No campo da sexualidade, está conectada com a sensualidade, o erotismo e a criação de vidas novas.

Simbolicamente, era conectada a imagem de pombas e cisnes, flores e frutas de cheiro adocicados (em especial rosas vermelhas e maçãs douradas), pois representam de alguma forma o amor e a energia sexual dos amantes. Também era associada com a cor e o elemento Ouro, pois “’Golden’ (dourado) era o epíteto mais frequentemente usado pelos gregos para descrever Afrodite; significava "bonita" para os gregos (SHINODA, 1990, p.184).

O arquétipo de Afrodite está diretamente conectado com a intensidade nos relacionamentos, o fluxo criativo da vida e a abertura e receptividade para a transformação. Um exemplo de sua influência transformadora pode ser percebido na história de Psique e Atalanta, duas mulheres mortais que passaram por grandes mudanças após seu contato com a deusa.

No processo terapêutico, em especial para mulheres, é de suma importância reconhecer quando o arquétipo de Afrodite se faz presente. Apesar de se manifestar em muitas mudanças, apaixonamentos e processos criativos na vida da paciente, muitas vezes é acessado pelo viés sombrio e meramente sexual, tendo como consequência o envolvimento em relacionamentos tóxicos, superficiais e sem futuro.

Vivenciar a influência arquetípica de Afrodite pela luz significa encarar a vida com apaixonamento - aqui não se restringe ao envolvimento amoroso e sexual com outras pessoas - e intensidade, entregue e pertencente ao momento e aos acontecimentos. Representa abertura e receptividade, pois permite o indivíduo ser penetrado pela vida. Alimenta o processo criativo, pois como uma grande deusa fértil e geradora, Afrodite traz à tona a atração, a criação, a incubação, e a geração do “novo”.

Cultivar interesse pela arte, poesia, dança ou música satisfaz um propósito semelhante na esfera estética. Pode-se desenvolver a habilidade de ficar completamente imerso numa experiência visual, auditiva ou cinestésica. Uma vez que se está absorvido, então pode ocorrer uma interação entre si mesmo e o meio estético, interação da qual pode emergir alguma coisa nova. (SHINODA, 1990, p. 191).

Portanto, a criação pode ser considerada como uma força sensual, pois é envolvente e muitas vezes acessada por todos os sentidos (olfato, visual, tato etc.), configurando-se em uma grande experiência sinestésica. Segundo Shinoda (1990), no contexto sexual e simbólico, a energia arquetípica de Afrodite transforma os indivíduos, e em especial as mulheres, em vasos de procriação.

A manifestação arquetípica de Afrodite também está intimamente conectada com o apaixonamento entre pessoas: “Quando duas pessoas se apaixonam, cada uma vê a outra num resplendor especial e intensificado (Afrodite dourada) e é atraída em direção à beleza da outra.” (SHINODA, 1990, p.1992). Surge, portanto, uma força eletrizante e envolvente, que paira densa no ar entre os dois apaixonados, criando como que um campo magnético.

Afrodite possui uma energia criadora como consequência de seu apaixonamento, pois “Ao contrário de Deméter, que pratica o sexo porque deseja um bebê, o sexo de Afrodite acaba gerando um bebê como consequência do seu desejo por um homem ou por causa do desejo de experiência sexual ou romântica” (SHINODA, 1990, p.189).

Porém, experenciar a influência arquetípica de Vênus pela sombra, pode gerar uma estagnação, fechamento e desencantamento. Sem o apaixonamento pela vida, pelas pessoas, pela natureza e pelos projetos, um indivíduo pode deparar-se com um grande marasmo e torna-se carrancudo e ranzinza. Fecha-se para novas coisas e aprendizados, tornando-se inevitavelmente enrijecido. Não é à toa que, para Jung (2011), a manter-se flexível é uma das características mais indispensáveis de um ego saudável.

Essa energia arquetípica afrodisíaca, quando vivenciada pela sombra, também pode gerar um grande sentimento de culpa. Durante muitos anos, era normal restringir a prática sexual somente ao cônjuge após o casamento e para finalidades reprodutivas. Retirou-se desse ato envolvente qualquer espontaneidade e prazer. Por isso, perante a quaisquer situações da vida que estejam ligadas ao prazer, a culpa pode se fazer presente, ainda mais quando o prazer está conectado a alguma atividade não produtiva, a qual, em reforço, é incriminada e condenada também pelo boom atual de produtividade. Shinoda explica:

Atitudes culposas e julgamentosas levantam obstáculos para se desfrutar do fazer amor ou trabalho criativo. Tais obstáculos surgem quando as pessoas sentem uma proibição contra o prazer, o lazer e outras atividades não produtivas, tanto quanto contra o sexo. Muitas pessoas julgam a busca do amor e da beleza como frívola na melhor das hipóteses e pecaminosa na pior delas. (1990, p. 190).

Ao mesmo tempo que nossa sociedade recrimina a futilidade do prazer, as ideias e as pessoas afrodisíacas são muito vendidas pela mídia. Um exemplo clássico seria Marilyn Monroe, que tem o encantamento e sensualidade de uma Vênus. Devido a tendência humana natural à imitação, esse modelo de feminino é altamente inspirador. Porém,

Quando a sensualidade e a sexualidade nas mulheres são rebaixadas, [...] a mulher que personifica a enamorada Afrodite é considerada mulher sedutora ou prostituta. (SHINODA, 1990, p. 188).

Faz-se necessário então, conscientemente, retomar essa conexão com a parte iluminada do arquétipo de Afrodite, pois, segundo Hillman (2020), os eventos psíquicos dos indivíduos são coloridos por Vênus, e é ela que permite acessar sinestesicamente o mundo, a natureza, a vida, o corpo e o amor, salientando a beleza e harmonia da alma. O autor amplifica:

Por outro lado, Vênus é uma das paradas obrigatórias, e ela reclama seus direitos. O homem moderno tem uma dívida acumulada com Afrodite sobre a qual está hoje em dia acertando contas a juros altíssimos. (HILLMAN, 2020, p.43).

Durante milênios, o conceito de beleza foi encarado e interpretado de diversas formas. Cada sociedade em uma determinada época vivencia de uma maneira única, em concordância com o chamado “espírito da época”, e isso vale tanto para o campo da arte como na aparência física dos indivíduos. Por exemplo, na Grécia Antiga valorizava-se o corpo atlético e proporcional. Já na Idade Média, a palidez e os traços delicados eram as características mais desejadas em uma mulher. No Renascimento, corpos curvilíneos e mais cheios eram associados à saúde e força, indicando também a nobreza, pois normalmente era possível somente em pessoas com boas condições financeiras que não precisavam desempenhar trabalhos braçais.

A partir do século XX, um novo padrão emergiu. Nos anos 60 e 70 o padrão de magreza começou a se consolidar e nos anos 90, devido a era das supermodelos, corpos magros e sem muitas curvas passaram a ser os mais desejados. A fim de atingir essa beleza idealizada, muitos transtornos psicológicos e alimentares ganharam força, como a bulimia, anorexia, ansiedade e compulsão.

A dismorfia corporal acabou tornando-se um problema recorrente no consultório clínico desde então. Por conta dela, o indivíduo, ao se olhar no espelho, não enxerga a realidade e projeta defeitos imaginários em sua aparência física. Quem tem esse transtorno pode acabar também desenvolvendo fobia social, pois se isola com receio de ser julgado por sua aparência física.

A força criadora e envolvente de Afrodite foi transformada em um culto superficial à corpos perfeitos. Viver na própria pele, com características únicas e singulares, tornou-se um fardo. É necessário consciência para entender que a individualidade é valiosa e que os padrões estéticos são temporários e transitórios. A moda é um grande espelho para isso: tendências de roupas de 10 ou 20 anos atrás muitas vezes passam a ser ridicularizados e considerados cafonas ou simplesmente voltam à moda. Então, não existe belo ou feio, e sim belo ou feio naquele momento histórico.

Portanto, segundo Jung, é necessário descobrir o que é autenticamente individual em cada um. É através de uma profunda reflexão que se alcançará uma individualidade própria. Não se constitui um egoísmo, mas sim um ato de engrandecimento próprio e social, pois estão intrinsecamente ligados. Não há melhoria social sem antes uma evolução pessoal. É um grande clichê, mas a mudança começa pelo indivíduo. Jung resume:

O desenvolvimento da individualidade é simultaneamente um desenvolvimento da sociedade. A repressão da individualidade pela predominância de ideias de organizações coletivas significa a decadência moral da sociedade. (7/2, 2011, p.173).

Afrodite retêm a capacidade de ver a beleza e de sempre estar apaixonada, no que quer ou quem quer que ela focalize. Quando nela inspirada, a humanidade pode viver com graça, vitalidade e interesse envolvente pelos outros ou pelo desenvolvimento do trabalho criativo, que segue sendo um dos aspectos mais importantes da vida. Portanto, a reflexão aprofundada do valor estético é indispensável atualmente, e como afirmou Hillman, há uma grande dívida a ser paga à Afrodite, que merece ser vivenciada pelo seu viés criativo e transformador.