Sobre luto.
Como enfrentar o luto? Como superar o luto? Como superar a morte de alguém?
Julyane Antunes
6/12/20254 min read
O luto é uma das grandes certezas da vida. Todos iremos passar por ele, em algum momento. É inerente ao ser humano, infelizmente, perder pessoas do nosso círculo social.
Quando pensamos em enfrentar ou superar o luto ou a morte, vem a ideia de lutar contra. Assim como se enfrenta batalhas ou se supera uma adversidade. Enfrentar passa a ideia de que o luto precisa ser combatido, que precisamos lutar contra ele. Superar passa a ideia de que precisamos fugir do luto, ou passar por ele de forma rápida. Entender que não precisamos enfrentar e nem superar o luto é o primeiro passo para começarmos a lidar com ele de uma forma melhor.
Para começar a entender isso melhor, talvez nós precisemos mudar as perguntas acima para:
Como suportar o luto?
O que aprender com o luto?
Quem sou eu para além do luto?
Acho que o grande desafio do luto é, inicialmente, suportá-lo. Não podemos fugir dele, precisamos sentar-nos com a tristeza e nela permanecer pelo tempo que for necessário. Nossas emoções precisam ser sentidas: a raiva, a tristeza, a sensação de injustiça, a revolta e todas as emoções que o luto traz à tona precisam ser sentidas! É realmente desesperador se sentir dessa forma, e por isso tentamos de todas as formas fugir ou anestesiar esses sentimentos. Por isso o grande desafio consiste em honrar nossas emoções e permitir que elas tenham espaço para se manifestarem, além da paciência em deixar que fiquem conosco pelo tempo que precisarem ficar.
Não tem como falar de luto e não falar de sociedade. Inclusive, uma das características que nos torna humanos e diferente dos outros animais, além da consciência e do cuidado com os doentes, é o ato de velar e enterrar nossos entes queridos. Uma das queixas mais frequentes do luto é: como continuar fazendo as tarefas do dia a dia como se nada tivesse acontecido? Como continuar trabalhando, exercendo uma função, cuidando dos filhos, da casa, quando estamos na presença do vazio que essa pessoa deixou?
Infelizmente não encontro respostas satisfatórias para essas questões. Vejo que nossa sociedade não nos dá espaço para absorver o impacto da perda. Atualmente já temos empresas que concedem alguns dias ao funcionário que perdeu alguém próximo, mas isso é realidade para poucos. A grande maioria precisa continuar atuando e produzindo socialmente. Isso acarreta, muitas vezes, em um atropelamento da dor: precisamos fugir dela ou passar por cima dela (o mais rápido possível) para continuar cumprindo nossas tarefas.
Como consequência, por não termos espaço para sentir o luto, ele pode se arrastar e estender mais do que o esperado. Também pode acontecer de não lidarmos com a dor, achando que ela irá embora, e no futuro isso voltar com tudo, em forma de um sintoma ou doença (do corpo, da mente e/ou da alma).
Por isso, no primeiro momento do luto, o ideal é honrar a dor, permitir que ela chegue, nos desestabilize e tenha espaço. Dar vazão aos sentimentos. Deixar a dor da alma se manifestar. Pensar sobre a vida, sobre as desesperanças, sobre as revoltas. E se possível, com o acolhimento de um psicoterapeuta, para nos ancorar nesse mar agitado que é o luto.
É importante salientar que não existe sentimento certo ou errado no luto. Muitas pessoas se cobram, por exemplo, por não chorarem na morte de um ente querido. Mas isso não significa que não exista tristeza, raiva e desamparo. Só significa que cada indivíduo tem um jeito de externalizar diferente.
Depois de um certo tempo, essas emoções mais afloradas começar a abrandar e o luto vira um companheiro diário, porém menos exigente. Aqui sim as tarefas diárias são positivas: retomar a vida, se ater a viver no momento, tarefa a tarefa, nos relacionando com as pessoas ao nosso redor e nos distanciando, pouco a pouco, da dor traumática. Quando menos percebermos, momentos bons começarão a existir (apesar de muitas vezes virem carregados de culpa), em meio a dor da perda. Quando menos percebermos, um centelho de esperança brota aqui ou ali.
Num terceiro estágio, a vida começa a fazer sentido de novo e sentimos mais esperança: ainda há coisas boas pela frente. Nessa fase, o luto é um visitante esporádico, que vem vez ou outra, normalmente em ocasiões que puxam memórias, como uma música ou filme. Às vezes, ele visita de forma branda, outras, com força, nos derrubando, mas logo passa e voltamos a caminhar.
Após essa fase, a vida volta a ter esperanças. Começamos a planejar o futuro, nos engajar com outras atividades e outras pessoas. Tudo começa a caminhar de um jeito menos denso e pesado, pois o luto se abrandou ainda mais e virou um lugar que visitamos em nossa memória. Nesse momento, acessamos o luto de forma mais intencional, e mesmo quando ele reaparece espontaneamente, nos atravessa de outro lugar: um lugar simbólico e de aprendizado. Olhamos para trás e conseguimos ver que, apesar da dor, da revolta e da dificuldade, conseguimos tirar uma mensagem daquela situação. Aqui começam as frases: “Quando perdi minha mãe, eu vi que precisava mudar minha relação com minha filha.”; “meu marido falecido me ensinou o que era amor de verdade, por isso hoje encontrei um outro parceiro tão maravilhoso quanto ele”; “Aprendi com a morte do meu primo que não se leva nada dessa vida”, e assim por diante.
Durante toda essa jornada de luto, estamos constantemente revisitando a seguinte pergunta: quem sou eu para além desse ente querido? Especialmente em lutos de pessoas muito próximas, como o/a cônjuge ou os pais, sentimos como se parte nossa tivesse partido junto. E realmente partiu. Isso é desestruturante e muitas vezes ficamos sem rumo. Aquela parte nossa nunca mais existirá do mesmo lugar e precisará ser ressignificada. Na terapia, há um grande trabalho de resgatar e reestruturar o “eu”, a fim de que a pessoa enlutada se sinta confiante novamente perante a vida e seus mistérios. Não podemos esquecer de nós e de quem somos em meio a essa dor.
Se esse texto fez sentido para você e ou sente que precisa de ajuda para enfrentar um processo de luto, sinta-se acolhido(a) e fique à vontade para me chamar.
Com carinho,
Julyane Antunes - Psicoterapeuta.
“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” .
C. G. JUNG.
(41) 98812-3211


julyane@almaejung.com.br
