Insatisfação de mulheres com a carreira
Já se pegou refletindo: “Do que me serve tudo isso? Como foi que eu perdi o rumo?” “Por que não encontro o que gosto de fazer?” “Por que esse trabalho não me preenche?”
Julyane Antunes
5/28/20254 min read
Nos últimos tempos, temos nos deparado muito com a insatisfação referente aos êxitos conquistados no mercado de trabalho. Com isso, vem a sensação de esterilidade e vazio, pois sentimos que aquele trabalho (ou todos os trabalhos) não nos preenchem e não possuem sentido. Também experimentamos uma dissociação ou um sentimento de traição (no caso, trair a si mesma): como se estivéssemos vendendo nosso tempo e dedicação a algo que não nos aprecia (e muito pelo contrário, nos suga e explora).
Pode parecer então que tudo está perdido e que o sucesso acadêmico e profissional nunca vão gerar um sentimento de completude e satisfação. Nisso, percebemos que a ilusória dádiva do sucesso, na verdade, nos deixa sem tempo, exaustas e sofrendo de doenças decorrentes do estresse.
Ao adentrar no mundo corporativo, nós mulheres queremos provar que somos valiosas, inteligentes, independentes e capazes, tanto física quanto emocionalmente. Vestimos uma armadura de herói e vamos enfrentar o mundo! Porém, para isso, escolhemos mentores masculinos que validem as nossas ambições, para que assim consigamos caminhar em direção ao sucesso, dedicando nosso tempo, vida e alma para o trabalho e estudos.
Quando finalmente conquistamos prestígio ou um cargo importante, quando nos sentimos poderosas no mundo, quando chegamos ao topo, (nos estudos ou no trabalho), quando finalmente somos aceitas ao clube dos homens... parece que “do além” começa a surgir aquele pensamento traiçoeiro que diz: “Ok... mas o que faço com isso?”
Do topo, olhamos para baixo, para tudo o que conquistamos e o inevitável sentimento de vazio começa a surgir. Quando menos percebemos, nos deparamos com uma sensação de sacrifício do corpo e da alma.
Esse vazio pode durar anos, e uma longa jornada de terapia até que finalmente aceitamos o conflituoso dilema de que toda a batalha que tivemos para chegar aonde estamos não nos trouxe satisfação e nem contentamento.
Muitas vezes essa jornada heroica da mulher é interrompida por uma grave doença, como um câncer, um AVC ou uma grave depressão.
Não importa se a descida ao fundo do poço tenha sido lenta ou abrupta, esse encontro com o vazio é inevitável. Negar já não funciona mais.
Lá no fundo no poço, no desconhecido, no escuro, onde o medo e a insegurança habitam, o sentimento de desespero começa a dominar. Esse fundo do poço é ainda mais difícil de tatear, pois até então, aprendemos a fazer tudo com lógica e eficiência, e isso não nos serve de nada quando se trata de navegar profundamente em nossas águas. Assim, nos vemos desamparadas, sem rumo e sem saber como se quer começar a procurar uma saída, pois ao longo dos anos fomos nos desconectando de nosso sonhos e de nossa intuição (peças chaves nesse processo)
Como devo navegar? Quem irá me guiar? Como recuperar minha intuição? Como confiar na vida e em mim mesma?
Esse sentimento de desamparo é coletivo: quando nós mulheres decidimos parar de seguir as regras do mundo corporativo (basicamente feito por homens e para homens), não temos diretrizes de como agir, sentir ou para onde ir. Sabemos exatamente o que não queremos..., mas não conseguimos tatear do que queremos.
E o pior disso tudo é que, quando entramos em colapso, nossa rede de apoio (amigos, familiares e colegas de trabalho) passa a não nos reconhecer mais. Ficamos estranhas para eles, querem logo que a gente “fique melhor” ou volte ao ritmo antigo, com o qual estavam acostumados. Imploram para que a heroína em nós “siga em frente”. Porém, a descida já é inevitável. Vamos precisar descer ao fundo do poço e nunca mais sairemos dele do jeito que entramos, correndo o risco de perder relacionamentos, amigos e nos afastando da família.
Esse choque inicial nos nossos relacionamentos é extremamente necessário: novos limites serão definidos e novas práticas serão aderidas. Quem realmente nos ama em nossa essência, permanecerá. Com isso, os relacionamentos da vida são redefinidos, para um lugar muito mais saudável e pleno.
Essa nova forma de se relacionar com o mundo e as pessoas não é a única coisa que muda: a forma como nos relacionamos com nós mesmas também irá mudar. É impossível voltar do fundo do poço sem mudanças e aprendizados (na verdade, isso é o objetivo principal dessas crises acontecerem). Às vezes precisamos desses “chacoalhões” da vida (por mais doloridos que sejam) para estarmos mais perto de nós mesmas, nos conhecendo cada vez mais nesse processo.
Então, no final das contas, nem tudo está perdido. No desespero, é difícil acreditar que algo bom irá vir como resultado desse desequilíbrio. Mas eu posso te garantir que sim, irá! Essa nova mulher que emerge do poço, é uma mulher transformada e mais próxima de sua verdade. Com isso, mais leve, plena e feliz.
Essas reflexões estão fortemente presentes no livro “A Jornada da Heroína”, de Maureen Murdock.
- O que é a jornada da heroína?
A jornada da heroína é um ciclo contínuo de desenvolvimento, crescimento e aprendizado. Começa quando o “antigo eu” já não serve mais. Pode acontecer quando a jovem sai de casa para começar a faculdade, o trabalho, viagens ou no início de um relacionamento. Ou também na meia idade, em um divórcio, na retomada dos estudos, na mudança de carreira, ou ao se deparar com o ninho vazio.
Atualmente, sou facilitadora de um Clube do Livro, no qual trabalhamos e refletimos sobre o conteúdo desse livro. Metade do encontro eu trago reflexões sobre as páginas estipuladas para a leitura e a outra metade, compartilhamos vivências pessoais que reverberaram lendo aquele trecho. É uma oportunidade de conhecer outras mulheres, trocar sabedorias e nos acolher nesse difícil processo. Há uma lista de espera que você pode se inscrever:
“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” .
C. G. JUNG.
(41) 98812-3211


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